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Com a saída do professor Paulo Rômulo de Oliveira Frota da UNESC, o Grupo de Pesquisa passa a ter esta nova configuração.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

http://ead.mackenzie.br/eventos/course/view.php?id=6
 congresso
Submissão de artigos e minicursos : de 02/JAN/2013 a 05/ABRIL/2013 (Não haverá prorrogação)
Inscrições:
de 01º/FEV a 20/MAIO/2013 (ou enquanto tivermos vagas)

Resultado dos artigos/minicursos aprovados: 25/ABRIL/2013
Congresso:
23 a 25/MAIO das 9h00 às 17h00
Local:
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Campus Higienópolis - SP

Eixos Temáticos

  • Ambientes Virtuais de Aprendizagem
  • Avaliação em EAD
  • Desenvolvimento de Objetos de Aprendizagem
  • Design Instrucional e suas aplicações
  • Estratégias em EAD
  • Ética e Segurança nos Meios Eletrônicos
  • Formação de Educadores na Era Digital
  • Games na Educação
  • Informática na Educação Especial
  • Metodologias Educacionais nos AVEAs
  • Preparação de Materiais Didáticos para Ensino Online
  • Realidade Virtual e Aumentada
  • Recursos Educacionais Abertos - REA
  • Redes Sociais na Educação
  • Robótica Investigativa nos processos educacionais
  • Software Livre no Ensino
  • Tutoria em EAD
  • Uso de Tablets e a Tecnologia Móvel no Ensino


 

SEMANA INTERNACIONAL DE TECNOLOGIA EDUCACIONAL

 
De 16 a 18 de abril de 2013, São Paulo reunirá Líderes Educacionais e Organizações num grande Evento, a SINTED - Semana Internacional de Tecnologia Educacional, para avaliar vantagens e oportunidades que possam garantir o melhorpara o ensino e a aprendizagem, face às exigências da Escola Inovadora do Século 21.
O palco será o Palácio das Convenções do Anhembi e a escolha deste local obedeceu à sua completa estrutura de auditórios e área de exposição, no mesmo ambiente, que este complexo oferece com todos os meios necessários e exigidos para Eventos deste porte, a exemplo da SINTED.
Durante esta semana estarão sendo analisados os desafios das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) para as mudanças, considerando os novos paradigmas educacionais, acompanhando a transformação da escola, integrada numa sociedade em mudança. Por aqui passarão as reflexões sobre a integração das TIC na escola e na comunidade. Será possível, nos eventos da SINTED - Semana Internacional de Tecnologia Educacional, avaliar as condições da inovação para a incorporação das TIC à educação.
Os Eventos que integram a SINTED procurarão incentivar os caminhos com ideias e exemplos de boas práticas e correspondentes experiências que possam, a partir da escola e mais especificamente da sala de aula, atingir os objetivos de uma educação de melhor qualidade. Produtos, Equipamentos, Sistemas, Soluções e Serviços estarão igualmente disponíveis na Exposição Integrada, permitindo formar os completos meios para o ensino e aprendizagem do século 21.
Serão debatidas no Fórum Internacional de Tecnologia Educacional as últimas tendências na aprendizagem com o uso da tecnologia. Durante o dia 16 de abril de 2013, através do Fórum, será possível ter acesso a importantes conhecimentos, permitindo uma visão de futuro em ações de processos educacionais que deverão preparar os alunos para o aprendizado ao longo da vida. É um espaço que reunirá grandes debates e trocas de informação de grande valia no maior e mais rico networking, jamais realizado no Brasil, pela junção de ideias sobre tecnologia para a constituição da verdadeira escola inovadora. Aqui, os participantes estarão num lugar que irá tratar das últimas tendências sobre tecnologia educacional e, simultaneamente, terão ao seu dispor um calendário de outros grandes Eventos, oferecendo facilidades e recursos que possam proporcionar uma visão a respeito das metas e objetivos para mais sucesso e desenvolvimento profissional da equipe escolar e correspondente envolvimento da comunidade e contribuição mutua entre escola e comunidade. Que para todos seja possível, no futuro, avaliar com bons resultados a contribuição da SINTED.

domingo, dezembro 16, 2012

TEORIAS DA APRENDIZAGEM: contribuições para a prática docente em Ciências Naturais

Cibele da Silva Lucion*
Paulo Rômulo Frota
Richard da Silva


Resumo

As teorias da aprendizagem fazem parte, dentre outros, dos conteúdos estudados na disciplina Psicologia da Educação, ministrada nos cursos superiores de licenciaturas. Historicamente, tais teorias contribuíram para as modificações sobre do olhar sobre o processo de ensino e aprendizagem, o que gerou possibilidades distintas de conduzir a educação brasileira, principalmente no que tange a formação docente, criação de currículos do ensino básico e superior (licenciaturas), e ainda no embasamento teórico das propostas curriculares nacionais, estaduais e municipais, norteando também os projetos político-pedagógicos das instituições de ensino. Com base nestas colocações, o objetivo geral desta pesquisa constitui-se em analisar as contribuições das teorias da aprendizagem estudadas na disciplina Psicologia da Educação para a formação docente em Ciências Naturais, o que resultou de um estudo exploratório de abordagem qualitativa, onde foram entrevistados 16 licenciados em Ciências Naturais. Por meio da análise de conteúdos, concluiu-se que a maioria dos licenciados considera o conhecimento sobre as teorias da aprendizagem importante para sua formação e prática docente. Porém, dois negaram tal importância e, ainda, poucos souberam citar situações do cotidiano em sala de aula que tenham utilizado ou percebido conteúdos e reflexões com base nelas. A disciplina Psicologia da Educação ao trabalhar as teorias da aprendizagem tende a focar a infância, não aprofundando a realidade do Ensino Médio. Em alguns casos os conteúdos são ministrados de forma descontextualizada, reforçando assim, a dicotomia entre teoria e prática.

Palavras-chave: Teorias da Aprendizagem. Educação. Ciências Naturais.
 
 
Contextualização

Guedes (2002) afirma que os discursos da escola nova embasaram em 1960 a obrigatoriedade de algumas disciplinas pedagógicas nos cursos de licenciatura, dentre estas, a Psicologia da Educação. Neste período, a Psicologia vivenciava o seu auge diante da Educação e, conforme Salvador (1999), gerou grandes expectativas sobre esta área como meio de superar o fracasso escolar. Porém, Gatti (2003) e Patto (1984) destacam que por volta dos anos de 1970 e 1980 estas expectativas se tornaram frustrações levando a uma crise entre as duas áreas. As fortes críticas enfrentadas ocasionaram mudança de olhar sobre o papel da Psicologia da Educação, implicando seus objetos de estudo e buscando contribuições em outras áreas (Sociologia, Antropologia, Ciências Políticas e outras) a fim de superar o reducionismo, até então dado pelas explicações das questões educacionais.
Dessa forma, as concepções de ensino e aprendizagem passam a ser entendidas e explicadas também por meio das influências históricas e culturais, diminuindo assim a tendência de responsabilizar apenas o indivíduo pelo desempenho e comportamento no contexto escolar.
Dentre os conteúdos trabalhados, as teorias da aprendizagem ganham ênfase na disciplina Psicologia da Educação, que passa a focar os distintos modos de compreender o processo de ensino e aprendizagem.
As teorias da aprendizagem, segundo Carvalho (2003), apresentam contribuições à compreensão do processo de ensino e aprendizagem referente à criança/jovem ou ao adulto, considerando o desenvolvimento, a faixa etária e os aspectos psicossociais e cognitivos. Portanto, referente aos conteúdos da disciplina Psicologia da Educação, as teorias da aprendizagem são dentre outros, um dos itens mais enfocados nos ementários dos cursos de licenciaturas em Ciências Naturais consultados durante a pesquisa. Assim, optou-se no
decorrer da pesquisa por enfatizar nos questionamentos aos entrevistados, as teorias da aprendizagem estudadas ou que deveriam ser estudadas durante a graduação.
O ensino das disciplinas escolares da área de Ciências Naturais apresenta algumas distinções, por exemplo, entre as disciplinas em Ciências Humanas. Uma delas é que no caso das primeiras, são trabalhados conceitos prontos e que não são passíveis de discussões críticas sobre da formação destes. Como no caso do conceito de "célula", na biologia, que é um conceito universal, ou seja, não permite questionamentos. Já na área das humanas, o conceito de "sociedade", por exemplo, é diverso, existindo vários autores que apresentam concepções semelhantes ou até mesmo distintas, descaracterizando, neste caso, a universalidade conceitual.
Conforme as questões apresentadas, considera-se importante conhecer como e se de fato as teorias da aprendizagem contribuíram para a formação dos licenciados em Ciências Naturais, partindo dos pressupostos mencionados. Sendo assim, o problema de pesquisa se constituiu em: Quais as contribuições das teorias da aprendizagem estudadas na disciplina Psicologia da Educação para a prática docente dos licenciados em ciências naturais?
No intuito de responder ao problema central, fixaram-se os seguintes objetivos: analisar as contribuições das teorias da aprendizagem estudadas na disciplina Psicologia da Educação para a formação docente em Ciências Naturais; descrever as relações entre teorias da aprendizagem e a prática docente e, por fim, discutir a identificação ideológica e prática dos licenciados em função das teorias estudadas na disciplina Psicologia da Educação.

Material e método


O modelo do estudo adotado foi o estudo exploratório, de abordagem qualitativa. A pesquisa exploratória segundo Lakatos e Marconi (2006) tem como finalidade aprofundar o nível de conhecimento sobre determinada temática, assunto e ou realidade prática. A abordagem qualitativa não tem caráter mensurável e, conforme Silva e Silva (2007), possui como principal técnica a interpretação dos fenômenos, a atribuição de significados, as observações e análises.
A amostra foi constituída por 16 professores, sendo 4 de cada curso da área de Ciências Naturais (Matemática, Física. Química e Biologia), que atuam no Ensino Médio da Rede Estadual de Criciúma - SC. Como característica principal, possuir a licenciatura plena na disciplina em que leciona no magistério do Ensino Médio.
Os professores entrevistados cursaram a disciplina Psicologia da Educação e ou Teorias da aprendizagem em diferentes universidades da região do sul de Santa Catarina (UFSC
1, UNESC2 e UNISUL3), sendo uma federal e as demais comunitárias. A carga horária foi semelhante (entre 60 e 72 horas semestrais) e a disciplina cursada em períodos letivos distintos. Dentre os 16 entrevistados, um possui o doutorado, dois o mestrado em andamento, dez uma especialização e os demais a graduação completa. O tempo de atuação na Rede Estadual de Ensino varia entre seis meses e 28 anos. Tal diversidade possibilitou verificar o olhar frente às contribuições das teorias da aprendizagem, não se atendo apenas a uma realidade específica de uma única instituição, método de ensino do docente ministrante, entre outras restrições. Porém, também é provável que as distinções das disciplinas cursadas possam interferir na avaliação dos licenciados em ciências naturais sobre as contribuições das teorias da aprendizagem. Com base nisto, a pesquisa não possui caráter quantitativo, ou seja, não visa apontar números dos licenciados em ciências naturais satisfeitos ou insatisfeitos com os estudos sobre teorias da aprendizagem, e sim, fazer um estudo qualitativo e exploratório sobre o que pensam e vivenciam a respeito dos conteúdos em seus cotidianos profissionais.
A coleta de dados se fez por meio de uma entrevista semiestruturada com 8 perguntas abertas (ANEXO 1), correspondente a uma sequência de perguntas organizadas previamente e que possui a finalidade de nortear os objetivos que se pretendem alcançar com a pesquisa. Neste contexto, Boni e Quaresma (2005, p. 75) caracterizam as entrevistas semiestruturadas:
As
entrevistas semiestruturadas combinam perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto. O pesquisador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o interessa fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram claras ou ajudar a recompor o contexto da entrevista, caso o informante tenha "fugido" ao tema ou tenha dificuldades com ele. Esse tipo de entrevista é muito utilizado quando se deseja delimitar o volume das informações, obtendo assim um direcionamento maior para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados.
As entrevistas foram realizadas em três escolas da Rede Estadual do Município de Criciúma – SC. Utilizou-se com a devida autorização, um gravador digital.
As falas dos entrevistados são representadas da seguinte forma: os licenciados em
Matemática foram citados como M1, M2, M3 e M4, os licenciados em Ciências Biológicas B1, B2, B3 e B4 e assim sucessivamente, em Física F1, F2, F3 e F4 e Química Q1, Q2, Q3 e Q4.

Análise de dados

Utilizou-se a análise de conteúdo embasada na teoria de Minayo (2003). A autora afirma que este procedimento constitui-se na análise interpretativa da mensagem contida nos relatos de entrevistas e ou materiais escritos coletados. Considerando, sobretudo, o que está subentendido e ou implícito nos discursos apresentados pelo grupo e ou indivíduo pesquisado.
Com base nesta conceituação, foram desenvolvidas três categorias de acordo com os objetivos da pesquisa e os dados coletados, sendo estas: teorias da aprendizagem: da identificação à prática docente; concepções de ensinar e aprender e, por fim, disciplinas pedagógicas versus específicas da área.

Teorias da aprendizagem: da identificação à prática docente

A finalidade dos questionamentos (Figura 1) sobre as correntes da Psicologia foi a de verificar o que os entrevistados se lembravam, com qual delas se identificavam e o que utilizam ou já utilizaram em sua prática docente e, ainda, se há uma compreensão em nível conceitual condizente com as teorias em questão.

 
Figura 1 – Instrumento de coleta de dados.

1. Das teorias psicológicas estudadas na disciplina Psicologia da Educação com quais delas você se identificou mais? Comente.
2. O que especificamente é possível utilizar na prática docente no Ensino Médio dos conteúdos vistos nas teorias da aprendizagem?
3. O que você utiliza/ou já utilizou no seu ensino, das seguintes teorias:
a) Construtivismo:
b) Behaviorismo: c) Humanismo: d) Interacionismo: e) Psicanálise
3. O que você entende por ensinar?
4. E o que você entende por aprender?
5. Você utiliza algum dos autores relacionados abaixo? Quais e como o faz?
a)Piaget: b) Skinner: c) Vygotsky d) Henri Wallo; e)Rogers f) Ausubel
g) Freud h) Outros:
6. Como você acha que deveria ser ministrada a disciplina Psicologia da Educação para ser bem mais aproveitada pelo graduando, futuro professor?
7. Entre as disciplinas de conteúdo e as disciplinas pedagógicas, quais as que você mais valorizou? Por quê?

Entre os licenciados em Ciências Naturais, cinco dos dezesseis entrevistados afirmam se identificar com a teoria histórico-cultural ou interacionismo de Vygotsky. É importante destacar que a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina (2005) possui como embasamento a teoria Histórico-Cultural de Vygotsky (1985), o que certamente motivou muitos docentes a se aprofundarem em tal teoria. Além disso, os cursos de capacitação e aperfeiçoamento oferecidos pelo estado também divulgam tais concepções de ensino e aprendizagem.
A teoria do construtivismo de Piaget foi citada por dois licenciados. Um apontou a psicanálise como teoria preferida, devido às fases do desenvolvimento psicossocial e a influência destas na sexualidade humana, constatada por Sigmund Freud. Esta entrevistada é licenciada em Biologia e especialista em sexualidade. Porém, a grande maioria, oito dos dezesseis licenciados em Ciências Naturais não souberam citar nenhuma teoria, alegando que não se lembravam com profundidade e/ou só recordavam de alguns nomes como "interacionismo", "construtivismo", mas não sabiam distinguir entre uma teoria e outra.
Percebeu-se que os entrevistados que apresentaram identificações com as correntes psicológicas apresentavam um discurso mais fundamentado, inclusive citando situações práticas do seu cotidiano. Na fala a seguir, em que o licenciado em Física descreve situações na disciplina que leciona, pois é possível verificar o esforço que faz para trabalhar os conceitos de acordo com a teoria histórico-cultural, contextualizando-os historicamente e considerando o processo de aprendizagem dos alunos:
Mas tem coisas que são bem importantes, por exemplo, saber como que os alunos elaboram os conceitos. Eu dou aula de matemática e física, e nos dois casos... O que eu penso das questões psicológicas: para um aluno se apropriar de um conceito, pelo que eu estudei, ele precisa conhecer as etapas onde aquele conhecimento foi produzido historicamente. Na física eu consigo fazer mais isto, consigo discutir a origem dos conhecimentos, por que eles surgiram, qual a necessidade humana daquele momento histórico (F1).
Saviani (1999), Silva e Schnetzler (2006) destacam a importância de tornar o conhecimento elaborado historicamente assimilável aos alunos para que estes tenham condições de desenvolver um olhar crítico e uma postura ativa frente ao seu papel de cidadão transformador da sociedade.
Para Vygotsky (1985), a aprendizagem necessita de uma mediação, devendo ser o mediador uma pessoa mais experiente, que reconheça os conhecimentos prévios do indivíduo e possa promover a aprendizagem ampliando o nível conceitual do aprendiz. Este processo
ocorre por meio da ZDP (Zona de Desenvolvimento Proximal).
A concepção de ZDP criada por Vygotsky (1985) é descrita por Frota (2002, p. 74):
A zona de desenvolvimento proximal significa, portanto, um domínio psicológico que se encontra em constante transformação. O que uma criança consegue fazer em determinado momento com a ajuda de alguém poderá fazer sozinha depois. [...] A zona de desenvolvimento proximal constitui-se em situações de mediações em que entra em jogo a possibilidade de aprendizagem. Assim sendo, elas estão intimamente ligadas à formação de conceitos.
Nota-se assim que a ZDP faz parte do processo de formação de conceitos. Inicialmente Vygotsky (1985) afirma que os conceitos são formados com base nas vivências culturais e, portanto, não são científicos. O papel do mediador está justamente em fazer as mediações entre sujeito e objeto, para que o último possa desenvolver estes conceitos preliminares, e internalizar os científicos.
Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos definidos, são retratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de uma pessoa (VYGOTSKY, 1985, p. 39).
Veja o relato de uma situação cotidiana em sala de aula em que o licenciado em Matemática, ao argumentar seus procedimentos metodológicos para os alunos, evidencia um discurso embasado na teoria histórico-cultural, em especial, sobre o conceito de ZDP e aplicação prática deste:
Então eu disse: que se está sempre fácil eles não estão se desenvolvendo, estão apenas treinando, repetindo o que eles já sabem. Agora, quando vocês têm dificuldades no início, mas conseguem fazer com a ajuda do colega, do professor, às vezes dos pais, alguns têm pais que estudaram mais, aí sim vocês estão se desenvolvendo, estão mudando de nível e daqui a pouco vocês não precisam mais da ajuda e conseguem fazer sozinhos (M3).
Rego (1995) coloca que estes conceitos são construções culturais e, portanto, são cotidianos, e para o indivíduo internalizar os conceitos científicos é necessário o processo de mediação já citado. Aguiar e Frota (2002, p. 75), neste contexto, distinguem tais concepções desta forma: "Os conceitos cientificamente construídos, ao contrário dos cotidianos, permitem um grau maior de abstração e generalização, adquirindo cada vez mais abrangência e complexidade".
Prosseguindo, outros relatos a respeito da identificação e do uso das correntes psicológicas podem ser analisados. Referente ao construtivismo de Piaget:
Eu tento usar mais o construtivismo. Hoje por coincidência eu utilizei uma folha de papel para mostrar os cálculos do gráfico. Porque o aluno do ensino médio, por incrível que pareça, ainda precisa do concreto. O gráfico é uma coisa muito abstrata pra eles, é assim que eu faço. (Q3)
Identifiquei-me mais com a de Piaget, mas lembro de ter estudado Vygotsky, Skinner, alguns mais atuais como Edgar Morin. Mas me identifiquei mais com Piaget mesmo. [...] (B1)
Burante as entrevistas, foi possível verificar algumas incoerências entre as identificações apontadas pelos licenciados em Ciências Naturais e os conceitos relatados por estes referentes às teorias da aprendizagem. No caso do professor B1, que afirmou se identificar com a teoria construtivista de Piaget, demonstrou não ter domínio conceitual sobre as correntes. Ao ser questionado sobre o que usa ou já utilizou das correntes psicológicas, respondeu:

a) Construtivismo:
já eu sempre procuro utilizar os conhecimentos que os alunos já têm para desenvolver os conceitos dentro da biologia, procuro sempre levar em conta a experiência que os alunos já têm para "tocar" minhas aulas.
b) Behaviorismo:
do Skinner eu não lembro, lembro mais do Piaget.
c) Humanismo:
não conheço.
d) Interacionismo:
uso quando faço plenárias, discussões em sala de aula de temas polêmicos como o aborto.
Observa-se que há uma confusão entre "construtivismo" e "interacionismo". Segundo Veer (1996) esta confusão é comum devido a algumas semelhanças entre as teorias. Porém, isto ocorre em nível de interpretação, e, portanto, pode ser sanada com as devidas leituras. Uma dentre outras diferenças importantes: a teoria interacionista entende que o desenvolvimento humano ocorre simultaneamente à aprendizagem, além disso, é necessária a presença de um mediador. Já para o construtivismo a aprendizagem ocorre posteriormente ao desenvolvimento maturacional, e ainda será a interação direta do indivíduo com o objeto (aqui não se fala em mediação) que proporcionará a aprendizagem.
B1, licenciado em Biologia, utiliza o desenvolvimento de conceitos de acordo com a teoria histórico-cultural, mas afirma ser uma prática baseada no construtivismo.
Segundo Ibiapina (2007), a teoria construtivista de Piaget afirma que o conhecimento é o resultado da interação entre o indivíduo e o objeto, devendo ocorrer a ação do sujeito
sobre o objeto e deste sobre o sujeito. Este processo ocorre por meio da assimilação e acomodação. Ainda em outro relato, percebe-se que as definições dos entrevistados não são bem claras ou são realizadas trocas conceituais entre uma teoria e outra.
O construtivismo e o interacionismo são as correntes mais confundidas. Percebe-se que os licenciados, apesar de terem cursado a disciplina de Psicologia da Educação, não internalizam as principais semelhanças e diferenças conceituais entre tais correntes psicológicas:

a) Construtivismo:
eu não tenho bem certeza, mas se eu não me engano era o construtivismo que falava que tem que considerar o que o aluno já sabe, fazer essa relação, de usar o conteúdo que ele já sabia pra daí sim começar o teu conteúdo. Eu não sei se era este o nome, mas tinha uma teoria que falava disto.
b) Behaviorismo:
eu lembro só do nome, mas não o que é.
c) Humanismo:
a gente vê, né, mas o difícil é lembrar.
d) Interacionismo:
fala sobre o relacionamento.
e) Psicanálise:
falava lá do Freud, é que eu o achava um doido né, ele é bem complicadinho. Falava do ego, superego... (Q2)
Apesar destas trocas, surgiram relatos concisos e de acordo com as concepções das teorias estudadas em Psicologia da Educação, de licenciados em Ciências Naturais. Estes apresentaram olhares mais críticos sobre as teorias estudadas, além da aplicabilidade consciente dos fundamentos de cada corrente. A seguir, falas de um licenciado em Física e dois em Matemática sobre o entendimento das correntes da Psicologia e o uso na prática docente destes:

a) Construtivismo:
em matemática, em alguns momentos eu usei de manipulações algébricas, figuras. Por exemplo, a soma dos ângulos de um triangulo é 180°, se eu chegar e disser isto para o meu aluno eu estarei impondo que é. Agora eu posso pedir para eles desenharem triângulos em várias folhas, recortar e pedir para eles montarem os ângulos e eles estarão construindo e chegando ao resultado que eu disse pra eles.
b) Behaviorismo:
do pouco que eu lembro do Skinner, o estímulo... Eu não consigo pensar assim, acho que não uso. c) Humanismo: não sei te dizer, não tenho muito claro o que seria o humanismo. d) Interacionismo: é a que eu procuro basear minhas aulas, sobre a formação humana e colocar todo o contexto histórico, do porquê que aconteceu, qual o objetivo que está por trás. Na matemática é mais difícil. Desde que eu me formei, o sistema era aquele tecnicista, vamos encher o quadro e reproduzir. E ainda eu noto que a gente acaba meio que misturando as linhas. Agora faz um tempo que eu não estudo tanto, tem alguns elementos que eu posso pegar do construtivismo e do interacionismo. Às vezes uma ferramenta que eu não tenho numa eu posso ter na outra. Mas eu tento pegar mais pela questão do interacionismo, que é a histórico-cultural (F1).
c) Construtivismo:
eu não utilizo porque não é minha linha teórica, o construtivismo de Piaget. Eu até fiz um curso sobre o construtivismo. Eles falam que
o aluno tem que construir o conhecimento. Lá no curso, eles pegaram um carrinho e deram para uma criança e a outra ficava anotando. Enquanto uma movimentava o carrinho a outra fazia anotações sobre a velocidade e tempo, foi feito várias vezes, mas e aí, cadê o conceito de função, tá ali no carrinho? E o que foi construindo, o aluno construiu realmente algum conhecimento? Foi uma das críticas que a gente fazia e outra o tempo limite. Hoje na sala de aula, é muito complicado, não dá para fazer o aluno repetir várias vezes até que ele descubra sozinho o conhecimento.
b) Behaviorismo: eu estudei um pouco, mas não me lembro muito, sei que é do Skinner. c) Humanismo: não, não vi nada. d) Interacionismo: sim, eu vi a questão da interação do meio, inclusive tem algumas pessoas que confundem, dizem que o Vygotsky apenas trouxe a questão do social para o construtivismo, mas na verdade não tem nada a ver, são coisas diferentes (M2).
d) Construtivismo
: como eu trabalho no ensino médio eu acabo não utilizando aquelas questões do pensamento concreto, embora o que me falte seja um pouco mais de conhecimento desta corrente. b) Behaviorismo: não, também não tenho muito conhecimento, já ouvi falar, sei que é do Skinner, mas não a ponto de saber se utilizo algo ou não. c) Humanismo: não, não. d) Interacionismo: essa é o meu chão, é o que eu tenho estudado mais. É o que eu manifesto na minha ação pedagógica (M3).
Além dos entrevistados mencionados neste tópico, dentre os 16, seis não souberam distinguir entre uma teoria e outra. Dentre estes, a maioria comentou que embora se lembrasse dos nomes, não conseguia mais associar os conteúdos vistos na disciplina de Psicologia da Educação. Cury et al (2002, p. 38) colocam que uma das dificuldades de valorização e até mesmo de aprendizagem das disciplinas pedagógicas ocorre porque: "[...] em cursos de graduação, disciplinas de cunho social e humanístico muitas vezes são apresentadas de forma teórica, sem que os alunos tenham oportunidade de vivenciar os conceitos e debatê-los à luz de suas experiências".
Dentre as perguntas efetuadas, havia uma questão sobre a qual a pesquisadora citou aos entrevistados as correntes teóricas e solicitou que eles relatassem qual o entendimento que tinham de cada uma, e se já haviam utilizado ou utilizavam em suas práticas docentes alguma delas. As respostas dos licenciados se caracterizaram do seguinte modo: o Humanismo e o Behaviorismo/Comportamentalismo foram menos recordados. Apenas uma dentre os 16 entrevistados afirmou que o professor de Psicologia da Educação frisava bastante o humanismo, mas que ela não saberia falar sobre a teoria. Quanto ao Behaviorismo/Comportamentalismo, embora mais da metade tenha afirmado que "ouviu" falar, apenas dois dos entrevistados associaram a teoria com os comportamentos de "condicionamento humano" e "estímulo/resposta".
Na questão na qual se solicitou aos licenciados que, pelo nome do teórico (disponibilizado pela pesquisadora): Vygotsky, Piaget, Skinner, Rogers, Ausubel, Freud e espaços para outros, falassem sobre o que sabiam ou associassem com a teoria respectiva, nenhum dos entrevistados fez referência a Ausubel. Alguns afirmaram que não o estudaram 
na disciplina de Psicologia da Educação, o que demonstra um agravante, especialmente na área das Ciências Naturais. Segundo Ferreira e Frota et al (2008), Ausubel é um dos autores que fundamentou a criação dos mapas e redes conceituais no ensino da Física. Os mapas conceituais são recursos instrumentais utilizados no processo de ensino e aprendizagem, em especial ao se trabalhar com conceitos científicos interligados. Estes conhecimentos são fundamentais à prática docente.
Quando se diz que conceitos são mapas surge logo a imagem de instrumento, esquema, indicadores ou rotas, aos quais se recorre para atingir um ponto específico. Daí a ideia de utilizar essa metáfora como recurso instrumental no ensino e aprendizagem de conceitos. Essa ideia desenvolveu-se a partir da década de 1970, fundamentada no modelo ausubeliano de aprendizagem significativa. (FERREIRA; FROTA et al, 2008, p. 11).
Quanto a Skinner, embora tenha sido recordado pelo nome, poucos o associaram com a teoria Comportamentalista. Alguns souberam relacioná-lo sem profundidade com frases como: é "aquele do condicionamento" ou do "estímulo e resposta". Verifica-se dessa forma a defasagem dos conteúdos trabalhados na disciplina de Psicologia da Educação, não possibilitando a internalização dos principais conceitos das teorias da aprendizagem.

Incoerências nas concepções teóricas

Durante as falas foram encontradas algumas "incoerências" na concepção e distinção entre as teorias, tais como, a confusão entre construtivismo e interacionismo.
a) Construtivismo:
eu não tenho bem certeza, mas se eu não me engano era o construtivismo que falava que tem que considerar o que o aluno já sabe, fazer essa relação, né? De usar o conteúdo que ele já sabia pra daí sim começar o teu conteúdo. Eu não sei se era este o nome, mas tinha uma teoria que falava disto.
b) Interacionismo:
fala sobre o relacionamento.
c) Psicanálise:
falava lá do Freud, é que eu o achava um doido né, ele é bem complicadinho. Falava do ego, superego... (Q2).
Segundo Rego (1995), existem semelhanças entre Vygotsky e Piaget, porém há também diferenças importantes, uma delas é que para Vygotsky (1985) a aprendizagem antecede o desenvolvimento e para Piaget (1989) é necessário primeiro o desenvolvimento maturacional (conforme a faixa etária) para que depois haja a aprendizagem. Além disto, Vygotsky (1985)
afirma que a interação entre o objeto e o indivíduo necessita de um mediador, enquanto para Piaget (1972) a interação é feita do indivíduo para o objeto num processo de construção do conhecimento sem a presença de um mediador. Q2 apresenta concepções equivocadas das teorias da aprendizagem. Ao se referir ao construtivismo faz uma confusão entre os conceitos de ZDP (característico do interacionismo e não do construtivismo), em especial, ao nível de conhecimento real do aluno e a necessidade do professor conhecê-lo. Ao interacionismo apresenta equívoco, confundindo tal teoria com Wallon (emoções/relacionamento professor e aluno).

Concepções de ensinar e aprender


Esta categoria de análise foi realizada com base nos questionamentos feitos aos entrevistados (Figura 1) sobre o que entendiam por ensinar e o que entendiam por aprender. A finalidade destas interrogações foi a de verificar a coerência entre a identificação com as teorias da aprendizagem e as concepções de ensino e aprendizagem.

Aprender:
o aprendizado não pode ocorrer de forma passiva. Ele tem que acontecer de forma significativa por meio das interações. O professor estabelece as mediações do conhecimento que foi elaborado historicamente. Na matemática, o aluno deve compreender o processo, não a fórmula só em si, mas como que se chegou ali (M2).
Ensinar:
são ações para que o outro consiga superar o seu nível de desenvolvimento. Criar situações de aprendizagem onde o professor tem um papel fundamental, deve ter conhecimentos de psicologia inclusive, para possibilitar que o aluno tenha um salto qualitativo de níveis conceituais.
Aprender:
é dar este salto qualitativo, superar o nível real do desenvolvimento nosso e alargar a zona de desenvolvimento proximal (M3).
Vejamos alguns dos relatos com concepções tradicionais de ensino. Segundo Mizukami (1984) a tendência tradicional na educação entende o processo de ensino e aprendizagem como o ato de transmitir e absorver passivamente o conhecimento.

Ensinar:
é transmitir o conhecimento para o aluno.
Aprender:
é quando o aluno compreende o que ele estudou (M1).
Ensinar:
transmitir o conhecimento referente a cada disciplina, por aí.
Aprender:
o aluno captar este conhecimento que tu está tentando passar pra ele (M4).
Disciplinas pedagógicas versus específicas da área
Dentre os autores consultados que citam tal problemática enfrentada na formação inicial dos licenciados têm-se Guedes (2002), Pavan (2000), Carvalho (2000), Silva e Schenetzler (2006) Saviani (2008), Guedes (2009), Nóvoa (1992), Selles e Salomão (2008), Bergamo (2006), entre outros.
Saviani (2009) diz que as discussões sobre formação docente enfrentam o dilema entre a ênfase nos conteúdos ou nos procedimentos didático-pedagógicos. Segundo o autor, historicamente os cursos como Pedagogia, que trabalham com as séries iniciais, foram estruturados com ênfase nas disciplinas pedagógicas, enquanto os cursos de licenciatura para o Ensino Médio foram estruturados com ênfase nos conteúdos, sendo este último, o caso da área de Ciências Naturais. O que se busca atualmente por iniciativa de algumas universidades comprometidas com a formação inicial, ou ainda por realização de pesquisas na área da educação, é superar este distanciamento entre aspectos pedagógicos e conteúdos específicos.

O dilema se expressa do seguinte modo: admite-se que os dois aspectos – os conteúdos de conhecimentos e os procedimentos didático-pedagógicos devam integrar o processo de formação de professores. Como, porém, articulá-los adequadamente? A ênfase nos conhecimentos que constituem a matéria dos currículos escolares leva a dar precedência ao modelo dos conteúdos culturais-cognitivos. Nesse caso, na organização institucional, seríamos levados a situar a questão da formação de professores no âmbito dos institutos ou faculdades específicos. Inversamente se nosso ponto de partida for o modelo pedagógico-didático, tenderemos a situar os cursos no âmbito das faculdades de educação (SAVIANI, 2009, p. 151). A mudança na estrutura curricular tem sido uma das tentativas de superar tal dicotomia, porém, conforme as falas dos entrevistados, o distanciamento entre disciplinas pedagógicas e as de conteúdos prevalece. A simples mudança de módulo ou posição na grade curricular não aproxima e não contextualiza ambos os quadros disciplinares.
Os relatos trazem a vivência dos licenciados durante suas graduações deste distanciamento reforçado tanto pela estrutura curricular do curso como pela postura dos docentes das disciplinas específicas da área e as didático-pedagógicas:

Olha, eu sempre valorizei todas, mas é claro que as de cálculos eram as principais. E os próprios professores focavam no cálculo, mas eu sempre fiz todos os trabalhos, lia todos os textos da Psicologia. Mas o que faltava era a discussão mesmo, a gente ia lá, fazia o trabalho e ficava por isto mesmo, então a gente mesmo não dava tanta atenção (M2).
Evidencia-se nas exposições de M2 a falta de dinâmica em sala de aula do docente da disciplina Psicologia da Educação, o que certamente contribuiu para a realização de aulas cansativas e "sem sentido". A fala "fazia o trabalho e ficava por isto mesmo" (M2) representa a falta do envolvimento da turma, por desconhecer a importância e por não vivenciar situações que ilustrem as teorias com a prática docente.
De acordo com as entrevistas, as disciplinas pedagógicas são vistas da seguinte maneira pelos licenciados em Ciências Naturais:
Como concorrentes/rivais das de conteúdos específicos;
Como um simples complemento, portanto, menos importantes do que as específicas;
São teorias desconectadas com a prática. Aqui cabe a reflexão de Saviani (2008) sobre a concepção de teoria e prática – práxis. Para o autor, não é possível desconsiderar a teoria ou a prática no processo de ensino e aprendizagem, sendo que ambas são dependentes uma da outra.
Dentre outras, as possíveis causas do desprestígio frequente em relação às disciplinas pedagógicas ocorre também para Frota e Alvez (2000) pela condução de tais disciplinas por profissionais que não conhecem a realidade do ensino de ciências da natureza, sendo que a maioria dos ministrantes é enviada pelos departamentos da pedagogia e ou psicologia, os quais nem sempre conseguem contextualizar as práticas docentes com o Ensino Médio.
Os centros de Educação geralmente não admitem a necessidade de pessoal com formação específica para ministrar a didática, a prática de ensino e outras cadeiras eventuais dirigidas para a Filosofia e/ou Epistemologia, em se tratando de visões histórico-evolutivas das ideias científicas (FROTA; ALVEZ, 2000, p. 51).

Conclusão

Inicialmente, faz-se necessário enunciar que as conclusões obtidas com a pesquisa não visam desmerecer a importância da disciplina Psicologia da Educação. Pelo contrário, acredita-se que as críticas são fundamentais para o aprimoramento da disciplina para que os futuros licenciados possam reconhecer e fundamentar a importância desse conhecimento em suas práticas educacionais.
O que se propõe são sugestões referentes à maneira e o enfoque dos conteúdos
trabalhados, já que a disciplina Psicologia da Educação é um espaço de formação durante a graduação, rico em possibilidades de contextualização das questões emocionais, cognitivas e desenvolvimento humano com os processos de ensino e aprendizagem.
É possível apontar, pelos resultados da pesquisa, sobre o fato de que o estudo das teorias da aprendizagem deveria receber alguns enfoques, conforme os entrevistados, ainda contemplados. Dentre eles, a contextualização dos conteúdos com a realidade de jovens que cursam o Ensino Médio, pois a maioria dos licenciados em Ciências Naturais leciona para este público. Assim, faz-se necessário atentar para as questões de aprendizagem, cognitivas, emocionais entre outras.
Considera-se importante voltar às questões da aprendizagem e do desenvolvimento para o contexto das Ciências Naturais, como a dificuldade de aprendizagem em cálculos, modelos e representações, contextualizando com as teorias da aprendizagem. Conforme os licenciados participantes da pesquisa, a disciplina é trabalhada da mesma forma em todas as áreas, ou seja, tanto em licenciaturas das ciências humanas como nas ciências naturais, o que foge à realidade específica de cada atuação. Como aspecto motivacional, sugere-se apresentar as teorias da aprendizagem com a realidade atual, fazendo uma ligação com os aspectos históricos destas e como é possível percebê-las e utilizá-las na prática docente.
A Teoria de Piaget (1972) sobre os estágios do desenvolvimento cognitivo traz contribuições significativas, porém o último estágio, específico da pré-adolescência e adolescência é o menos estudado na disciplina Psicologia da Educação, segundo as falas dos entrevistados. Enfim, as correntes psicológicas precisam ser compreendidas e estudadas, uma vez que são fundamentais para atuação qualificada dos profissionais da educação, especialmente o professor.
Dentre outras considerações, observou-se durante a pesquisa, o fato de que Ausubel não é estudado ou é pouco difundido, inclusive pelos graduandos em Psicologia, embora seja um dos autores com contribuições importantes para a aprendizagem. Este embasou a teoria sobre mapas e redes conceituais, que visa o desenvolvimento da capacidade de síntese e a dinamização dos conteúdos, provocando uma visão global e não apenas ramificada.
Por muitos anos a estrutura curricular das licenciaturas seguia o formato 3+1, isto é, a graduação tinha três anos de disciplinas específicas da área e apenas um (no último ano do curso) para as disciplinas pedagógicas, dentre estas as didáticas de ensino e a psicologia da educação. Este posicionamento curricular reforçava o distanciamento entre conteúdos teóricos e práticos, justamente porque eram vistos em períodos letivos distintos e totalmente desconectados. Apesar das modificações curriculares na tentativa de superar tal estrutura,
ainda persiste a dicotomia entre teoria e prática docente, conteúdo e forma (estratégias de ensino que se referem ao como ministrar aulas, por exemplo). A Psicologia da Educação que faz parte das disciplinas pedagógicas acaba sendo desvalorizada pelos graduandos devido tal distanciamento.
Por meio das falas dos entrevistados, percebe-se que alguns dos próprios docentes psicólogos ainda focam o olhar clínico da psicologia, por não estarem vinculados à educação, não enfatizando as teorias da aprendizagem no contexto escolar. Por isto, entre outros motivos, a Psicologia da Educação ainda é vista como um meio de curar e adaptar os alunos à sociedade que, segundo Saviani (1999), é conduzida pelas classes dominantes.
Finalizando, algumas sugestões que podem ser colocadas com o intuito de contribuir para o aprimoramento da disciplina: a pesquisa-ação (interdisciplinar) como meio de superar a dicotomia entre teoria e prática (durante a graduação); a aproximação com o contexto atual do Ensino Médio; o desenvolvimento de pesquisas com docentes ministrantes da disciplina com a finalidade de conhecer o olhar destes frente à Psicologia da Educação, o caminho percorrido e suas experiências enquanto docentes desta área.

terça-feira, novembro 20, 2012

Novo livro

O professor Paulo Rômulo de Oliveira Frota apresenta o livro: EDUCAÇÃO, SOCIEDADE E MEIO AMBIENTE NO ESTADO DE SANTA CATARINA: multiplas abordagens, na qual contribui por meio da escrita de um dos artigos contidos na obra juntamente com a professora Miriam da Conceição Martins.
 
 
É uma excelente sugestão de leitura!!!

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

É PRECISO COMBATER O RACISMO NAS ESCOLAS
Há exatos 317 anos, 20 de novembro de 1695, era assassinado um dos maiores líderes negro, Zumbi dos Palmares. Foi líder do maior quilombo já conhecido no Brasil. O Quilombo dos Palmares simboliza a resistência do povo negro contra o racismo e toda forma de opressão. Foi com este espírito que nos anos 70 o movimento negro instituiu esta data como o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. É um dia de reflexão sobre as reais condições de vida da população negra.
Infelizmente, o racismo ainda é uma realidade brasileira e esta longe de terminar. Ao contrário, ainda amargamos os piores indicares sociais. As recentes conquistas como cotas nas universidades amenizam, mas não resolvem os principais problemas enfrentados pela comunidade. Como podemos perceber, das 3.554 comunidades quilombolas identificadas pelo governo federal de acordo com a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR-2006), pouco mais de 100 possuem o título, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). As regiões de maior concentração de negros, os bairros pobres, vivem sob a égide da violência, encarceramento, internações compulsórias de “dependentes químicos”, extermínio da juventude negra e ocupações militares.


VIVA ZUMBI!
VIVA O QUILOMBO DOS PALMARES
VIVA O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
VIVA O POVO NEGRO.
Marcelo Batista Serafim dos Santos
Secretário de Imprensa e Divulgação SINTE/SC

quarta-feira, setembro 19, 2012

PROFESSOR FROTA DEIXA A UNESC!!

Caros Mestrandos, Bolsistas e Estagiários:

Recebi ontem, surpreso, minha demissão  sem justa causa, da Unesc. Nestes quase 10 anos dei a ela meu suor e o melhor de meu intelecto. Prova disso é o numero de dissertações que orientei, um dos melhores currículos do programa, a quantidade de trabalhos escritos e apresentados em congressos, 3 livros no prelo, vários artigos em periódicos, 8 mestrandos  e 8 bolsistas de Iniciação Científica, 4 defesas de dissertações marcadas...

Por estas razões não posso me sentir improdutivo nem admitir ser um peso morto para a Instituição. Mas, vocês me conhecem e sabem: eu não acredito em bruxas, por esta razão não as temo!

Vamos seguir em frente pois uma certeza eu tenho – o que eu sei, ninguém toma!
prf

quarta-feira, setembro 05, 2012

X CONGRESSO DE TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO


O Grupo de Pesquisa GPPRF, coordenado pelo professor Paulo Rômulo de Oliveira Frota, participou do X Congresso de Tecnologia na Educação na cidade de Recife - PE. Na ocasião, a mestranda Luciane de Oliveira da Silva fez uma belissima apresentação do trabalho: "Educação e Informática", contando com a presença de aproximadamente 50 ouvintes, onde foi muito aplaudida e parabenizada pela pertinência do tema e originalidade e clareza em sua exposição! 
 
 
 
          Outros momentos merecem destaque. Entre eles, a presença do grupo na palestra de Cipriano Luckesi.
 
 
Cipriano Carlos Luckesi (Bahia) Doutor em Educação pela PUC-SP, Mestre em Ciências Sociais pela UFBA, Bacharel em Teologia pela PUC-SP, Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica do Salvador. Vários livros publicados. http://www.luckesi.com.br/apresentacao.htm , ao lado de Luciane de Oliveira Silva (Santa Catarina) Mestranda do PPGE Mestrado em Educação pela UNESC, Especialista em Prática Interdisciplinar de Ensino pela FUCAP, Licenciada em Ciências Biológicas da UNESC, professora na rede pública em SC e na rede particular FEBAVE-SC.

segunda-feira, agosto 06, 2012

DEFESA PÚBLICA

O Programa de Pós-Graduação em Educação convidatoda comunidade acadêmica para assistir a Defesa Pública de Dissertação domestrando Daniel João Generoso, intitulada:
“O Técnico em Eletromecânica Formado no IF-SC CampusAraranguá: Competências, Conteúdos e Habilidades”
Banca Examinadora:
Prof. Dr. Paulo Rômulo de Oliveira Frota (Orientador)
Prof. Dr. Alex Sander da Silva (UNESC)
Prof. Dr. Cláudio Ferretti (IF-SC Campus Palhoça)

Data: 10/8/2012
Horário: 10h
Local: Bloco “O" sala 4


RESUMO

Este estudo tem como tema central odesenvolvimento de competências e habilidades na atual educação profissionalbrasileira e foi desenvolvido por meio de uma pesquisa realizada junto aosalunos egressos do Curso Técnico em Eletromecânica, oferecido pelo InstitutoFederal Santa Catarina – Campus Araranguá, desde o ano de 2008, visandocompreender como estes percebem a sua formação profissional e sua inserção nomercado de trabalho. Para isso, fez-se uma revisão da literatura e um apanhadoda legislação vigente para a educação profissional, apresentando a trajetóriahistórica do ensino técnico no Brasil, discutindo aspectos das leispertencentes a este segmento da educação brasileira e citando alguns pensadoresque estudaram a proposta do ensino por competências que acompanha a educaçãoprofissional. Considerando que até a presente data a instituição não possuiaestudos que apontassem a eficiência e eficácia do curso, este trabalhopropôs-se a questionar o técnico egresso sobre como ele percebeu sua formaçãotécnica e sua inserção no mercado de trabalho. O estudo teve como objetivoscaracterizar o Curso Técnico em Eletromecânica do IF-SC, a partir de suascompetências, habilidades e bases tecnológicas; identificar a condição detrabalho dos técnicos egressos deste curso frente ao mercado regional;descrever a percepção do aluno egresso sobre sua formação profissional e suainserção no mundo do trabalho. Com os dados coletados através de umquestionário, as respostas foram analisadas, inicialmente, por técnicasquantitativas e, depois, de forma qualitativa, visando compreender o desempenhodeste profissional e entender se o Projeto Político Pedagógico do Curso estavasintonizado com as necessidades regionais de formação de técnicos nesta área ecom a função social dos Institutos Federais frente a uma formação profissionalcrítica e autônoma. O estudo constatou que a idéia de Competências eHabilidades permeia toda a proposta curricular do referido curso, aindapermitindo observar que, tanto na articulação das unidades curriculares, quantona infra-estrutura existente e nas metodologias de ensino desenvolvidas, aformação por competências encontra-se como elemento central. Em relação àpercepção dos alunos, o estudo concluiu que o aprimoramento do curso pode ocorrerno sentido de revisar e melhor delimitar o enfoque do mesmo, privilegiando oaprendizado dentro de sub-setores específicos mais requeridos pelo mercado, bemcomo no sentido de reformular o foco de desenvolvimento de algumascompetências.

Palavras-chave: Ensino técnico. Ensino porcompetências. Habilidades.

quarta-feira, julho 18, 2012

VII Encontro Iberoamericano de Educação

As inscrições estão limitadas a 500 participantes e se poderão fazer até completar o total das vagas ou como máximo até dia 30/09/2012 por rigoroso ordem de inscrição.
As inscrições com apresentação de trabalhos deverão ser realizadas improrrogavelmente até o dia 31/07/2012, a través da web http://iage.fclar.unesp.br/eide onde encontrarão a forma de fazer a inscrição e remissão dos trabalhos.

Eixos:

Eixo 1 - Política e Gestão Educativa. Educação para a sustentabilidade.
Eixo 2 - Inovação e prática educativa.
Eixo 3 - Educação Infantil, Básica e Média.
Eixo 4 - Educação Superior e Formação Profissional
Eixo 5 - Atenção à diversidade
Eixo 6 - Formação do professorado e trabalho docente

Confira no link

segunda-feira, junho 25, 2012

REFLEXOS DA FORMAÇÃO INICIAL DE FORMADORES EM MATEMÁTICA


Revista Contrapontos - Eletrônica, Vol. 12 - n. 2 - p. 217-226 / mai-ago 2012

Phelipe Pires Fermino
Mestre em Educação pela UNISUL  
Cibele da Silva Lucion
Mestre em Educação pela UNESC.
 
Paulo Rômulo de Oliveira Frota
Doutor em Educação Ensino de Ciências Naturais pela UFSC. Docente do Programa de Pós-Graduação em
Educação da UNESC.
Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC)
RESUMO
 
A presente pesquisa está vinculada ao GP – Produção do conhecimento no paradigma histórico-cultural. É
resultante de um estudo de caso, com abordagem qualitativa, contendo como amostra quatro docentes do
curso de licenciatura em Matemática, sendo dois pertencentes ao quadro de professores da Universidade do
Sul de Santa Catarina – Tubarão – SC e dois da Universidade do Extremo Sul Catarinense – Criciúma – SC.
O objetivo geral constituiu-se em analisar a função destes

profissionais na formação do futuro professor
de Matemática, diante das situações existentes no cotidiano escolar. Por meio da análise de conteúdo,
observou-se que os entrevistados apontam que inicialmente compartilhavam das mesmas concepções de
seus professores da graduação, ou seja,
fi liando-se às tendências formalistas com interfaces na tecnicista.
Porém, segundo suas falas, há indícios que as opções teórico-metodológicas dos formadores, atualmente,
se aproximam das tendências empírico-ativista, construtivista e histórico-cultural. O trabalho sugere
que as modificações
no olhar frente ao processo de ensino e aprendizagem e as opções metodológicas
ocorreram pela disposição dos formadores de buscar subsídios teóricos e práticos nas oportunidades de
formação continuada que vivenciaram depois da graduação.

PALAVRAS-CHAVE:
Formadores. Professores de Matemática. Concepções de ensino.

CONTEXTUALIZAÇÃO

Nas últimas décadas, a formação de professores no Brasil e no resto do mundo tem sido motivo
de grandes interrogações devido às várias mudanças sociais, políticas e econômicas. Há necessidade
de adequar a formação dos professores a uma realidade que, submetida a um constante processo
de inovação, gera novas propostas educacionais e curriculares.
De acordo com Fiorentini e Castro (2003), a formação do professor de Matemática precisa
ser pautada na articulação entre teoria e prática, entre o saber especí
fi co vinculado a um saber
pedagógico. O saber matemático e o saber pedagógico devem estar articulados de modo que
conteúdos e formas possam melhor interagir na formação docente.
Os cursos de formação de professores, nos últimos anos, foram motivos de discussões e de
críticas por vários autores e estudiosos que, ao analisarem o sistema de ensino, veri
fi caram uma série
de deficiencia. Uma das condições citadas constantemente necessária para melhorar a qualidade
da escola seria fornecer uma formação inicial mais adequada às demandas educativas atuais e à
realidade contemporânea.
Diversos autores, entre os quais D’Ambrósio (1996), Fiorentini e Miorim (2001), a
firmam que os problemas das licenciaturas não serão resolvidos apenas com mudança de currículo, mas na
amplitude que caracteriza a construção de valores construídos pelo professor. É importante ressaltar
que o futuro professor necessita adquirir uma série de conhecimentos que se completam com
experiências vividas na escola, após terminar a licenciatura.
No Brasil, os primeiros cursos de formação de professores foram criados pela Universidade de São Paulo em 1934, e eram oferecidos nas Faculdades de Filosofia
Nesta época, os professores que
lecionavam Matemática nos cursos de licenciaturas se preocupavam apenas com a transmissão do
conteúdo matemático, desprezando as questões pedagógicas, tão importantes e essenciais para a
construção do conhecimento. Com a reforma universitária, Lei 5.540, os Cursos de Licenciaturas em
Matemática passaram a ser desenvolvidos nos Institutos e nos Departamentos de Matemática.
Os primeiros professores de Matemática nos cursos de licenciaturas, em sua maioria, eram
engenheiros oriundos das academias militares e Escolas Politécnicas. Estes professores possuíam
uma sólida bagagem do conhecimento matemático, mas nenhuma formação pedagógica. Muitos dos
nossos professores foram formados por Mestres que obtiveram sua formação nas décadas de 1970
em diante, sofrendo forte in
fluência da concepção conteudista, que, apesar de ter sido superada em
nível de discursos e inúmeras pesquisas sobre educação e a formação dos professores, permanece
viva e rege as práticas de ensino na maioria das nossas salas de aula (D’AMBRÓSIO, 1996).
É necessário que se pense na formação do professor que vai ensinar Matemática em ampla
dimensão, pois sentimos a ausência de alguns aspectos nesta formação que promovam as imersões
culturais, sociais e políticas do professor no mundo, aspectos estes apresentados com grande
destaque nos documentos que norteiam a prática pedagógica, como a Proposta Curricular de Santa
Catarina e os PCN’s.
A necessidade desse estudo parece então se justi
fi car, na medida em que permite esboçar uma
caracterização da prática do professor a partir de seus próprios discursos, bem como as implicações no
panorama atual do ensino superior, trazendo possivelmente uma contribuição para a discussão mais ampla
que perpassa o contexto atual de mudanças necessárias na formação inicial do professor de Matemática.


PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS


Para cumprir os objetivos pretendidos, foi realizada uma pesquisa estudo de caso com abordagem
qualitativa que investigou as concepções de ensino e a postura pedagógica a partir dos percursos
procissionais

dos formadores de professores de Matemática.
De
fi nido o problema da investigação, entendeu-se que a sua natureza nos aproxima da pesquisa
qualitativa do tipo estudo de caso que pode ser caracterizado:
[...] como o estudo de uma entidade bem de

fi nida, como um programa, uma instituição, um


sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social. Visa conhecer em profundidade o

seu “como” e os seus “porquês”, evidenciando a sua unidade e identidades próprias. É uma

investigação que se assume como particularística, isto é, que se debruça deliberadamente sobre

uma situação especí

fi ca que se supõe ser única em muitos aspectos, procurando descobrir o que


há nela de mais essencial e característico. (PONTE, 2006, p. 2).


Na Educação Matemática, segundo Ponte (2006, p. 3), “os estudos de caso têm sido usados

para investigar questões de aprendizagem dos alunos bem como do conhecimento e das práticas

pro

fi ssionais do professores, programas de formação inicial e contínua, projetos de inovação


curricular, novos currículos, entre outros.” Em relação à abordagem qualitativa:


[...] ela trabalha com o universo de signi

fi cados, motivações, aspirações, crenças, valores e atitudes,


o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que

não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 1998, p. 21-22).


Optou-se pela análise de conteúdo embasada em Minayo (1998). Tal procedimento, segundo a

autora, tem como

fi nalidade interpretar o que foi exposto por meio da verbalização dos entrevistados,


e ainda o que está subentendido nas respectivas falas coletadas durante a pesquisa. A partir desse

entendimento, elegeu-se como instrumento de coleta de dados uma entrevista, realizada a partir

de um roteiro semiestruturado, contento perguntas abertas.

Os sujeitos da pesquisa foram quatro formadores de professores que trabalham na Universidade

do Sul de Santa Catarina e na Universidade do Extremo Sul Catarinense, ministrando disciplinas que

envolvem cálculos. Utilizou-se a primeira inicial dos nomes para referenciá-los, sendo estes:

• Professor V.: Possui mestrado na área de Engenharia de Produção. Leciona a disciplina de

Sequências Numéricas e Séries, já trabalhou também com as disciplinas de Cálculo I, Estágios, Práticas de

Ensino, Fundamentos de Matemática e operou ainda em outros cursos, como Contabilidade, Administração,

Economia, entre outros. Atualmente vinculado à Universidade do Extremo Sul Catarinense.

• Professor N.: Hoje trabalha com as disciplinas de Trigonometria e Números Complexos,

Tópicos de Matemática Elementar e Estágio e já trabalhou Cálculo I, Matemática Financeira e Métodos

Numéricos. Vinculado à Universidade do Extremo Sul Catarinense.

• Professor B.: Atualmente leciona Geometria I, Geometria II e Tópicos de Matemática

Elementar e já trabalhou com as disciplinas Cálculos I e II. Possui especialização em Matemática

Pura. Vinculado à Universidade do Sul de Santa Catarina.

• Professora J.: Mestre em Ciências da Linguagem na área de Semiótica. Hoje lecionando na

Universidade as disciplinas de Práticas de Ensino, Análise Matemática, Estágio IV, Cálculos I e II, e já

trabalhou com Fundamentos de Matemática. Vinculada à Universidade do Sul de Santa Catarina.


ANÁLISE DE DADOS


Foram entrevistados quatro professores – V., J., N. e B. – que lecionam disciplinas de conteúdo

matemático. V. atua como docente do ensino superior há aproximadamente dez anos; J. atua há


220

Phelipe P. Fermino, Cibele da Silva Lucion e Paulo R. de Oliveira Frota – Refl exos da ...


seis anos; N., há oito anos; e B., há quatro anos. Buscamos compreender as concepções adquiridas/

reforçadas durante a formação inicial dos formadores e as mudanças que se deram ao longo do

percurso pro

fi ssional.


CONCEPÇÕES INICIAIS DOS FORMADORES


É muito forte, entre os docentes investigados, a evidência de que foram formados dentro de

uma tendência conteudista com ênfase na educação tradicional, que, segundo Mizukami (1990),

visava ao acúmulo de informações por parte dos alunos, que deveriam adotar uma postura acrícita

em relação ao conhecimento.

Conforme Freire (2000), o aluno e

fi ciente, neste período, seria aquele que reproduzia de forma


mecânica o que lhe era transmitido pelo professor, ou seja, por meio de uma educação bancária que

enfatizava uma espécie de “depósito” por parte do professor e “saque” que deveria ser fornecido pelo

aluno. Certamente esta tendência in

fl uenciou a formação dos entrevistados, mais especifi camente


frente aos procedimentos e às estratégias de ensino adotadas por seus formadores. Tal entendimento

é explicitado na fala de J.:


Como eu sou formada numa época bem tecnicista, na escola tradicional, a minha formação foi muito

voltada para a parte conteudista, embora que eu tivesse grandes mestres na minha vida, levando

deles a forma de ser, a forma de trabalhar em sala de aula e a humildade de tratar os alunos. No

entanto que eu tenho muito mais coisas positivas que as negativas eu nem me lembro.


No que diz respeito ao ensino de Matemática, o tecnicismo mecanicista procura reduzir a

Matemática a um conjunto de técnicas, fragmentando os conteúdos. Nesta tendência, destaca

Fiorentino (1995) que se exploram a memorização, as habilidades de manipulação de algoritmos e

as habilidades na resolução de problemas. Raramente o aluno precisa explicar, ilustrar ou construir

modelos matemáticos. A

fi nalidade maior, conforme Saviani (1998), é a supervalorização da prática


em detrimento da teoria, preparando os alunos para o mercado de trabalho, que neste período exigia

mão de obra apta às atividades industriais. No contexto da Matemática, Fiorentini (1995) a

fi rma:


[...] a concepção de matemática que continua prevalecendo é a formalista, que, combinada com

o tecnicismo, traduz-se na prática, na sala de aula, em treino e desenvolvimento de habilidades

estreitamente técnicas. Não importam os signi

fi cados matemáticos dos conceitos. O importante


é o desenvolvimento de habilidades.


As relações afetivas, tais como debates e questionamentos, tornam-se desnecessários e, desse

modo, o professor apenas apresenta os conceitos e os conteúdos preestabelecidos por órgãos

governamentais, fazendo com que os alunos tornem-se meros receptores do que lhes é imposto

(CARDOSO, 2007).

O predomínio do formalismo tecnicista (FIORENTINI, 1995, p. 112) é destacado também pelo

professor B.:


Eu fui para universidade federal, entramos lá praticamente com 40 alunos e saímos de lá apenas

com 2 alunos. Para mim foi interessante a formação na Universidade Federal de Santa Catarina

(UFSC), porque o comportamento é diferente do nosso. A federal elitiza. Deixa de lado a parte

afetiva. Você sai de lá com uma viseira, praticamente com o objetivo de reprovar, perde-se a

parte humana.


A fala sugere um ensino de Matemática excludente. Somente os supostamente mais inteligentes

conseguiam avançar na formação. O bom desempenho em Matemática representava um critério

avaliador da inteligência dos alunos e que nem todos tinham condições de possuí-lo. A Matemática

é vista como um

fi ltro social, isto é, o conhecimento é entendido como conjunto seletivo da cultura,


aprovada socialmente (FIORENTINO, 1995).

Percebemos que os formadores do professor B., segundo sua fala, focavam aos futuros

professores, a necessidade de possuir habilidades lógicas para transmitir conteúdos matemáticos,

com a

fi nalidade de aprovação ou reprovação dos alunos. Há indícios nas falas dos professores


entrevistados que, durante a formação inicial, os seus formadores não consideravam as relações

existentes entre professores e alunos, não valorizavam o conhecimento prévio trazido pelos alunos


Revista Contrapontos - Eletrônica, Vol. 12 - n. 2 - p. 217-226 / mai-ago 2012

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e que, principalmente, entendiam que, para ser um bom professor, bastava saber Matemática. A

centralidade do conteúdo na formação do professor é destacada pelo professor V.:

Eu tinha uma professora em especial que dizia sempre que a grande di

fi culdade de ser professor


de matemática é a falta de conteúdo dos professores.


Os formadores dos docentes entrevistados posicionavam-se de maneira estática quanto aos

saberes escolares. A Matemática foi apresentada aos futuros professores como um produto

pronto e acabado, tal como é concebido nos formalismos clássico e moderno, ao advogar que

essa ciência não deve ser apreendida em seu processo de produção e transformação (SANTA

CATARINA, 2005).

O tecnicismo, ao embasar-se no funcionalismo, parte da idéia de que a sociedade é um sistema

tecnicologicamente perfeito, orgânico, funcional e controlável. Não busca desvendar como os

conceitos matemáticos se construíram historicamente. Além disso, não é preocupação desta

tendência formar indivíduos não alienados, críticos e criativos, que saibam situar-se historicamente

no mundo. (FIORENTINI, 1995, p. 95).


Percebemos que os professores dos sujeitos da pesquisa possuíam uma concepção que fundia

a formalista e a tecnicista. Do ponto de vista pedagógico, baseado em Saviani (1998), podemos

inferir que se

fi liavam à Pedagogia Tradicional.


MUDANÇAS AO LONGO DO PERCURSO


Após investigarmos os re

fl exos da formação inicial, solicitamos que os docentes falassem sobre


os motivos que os

fi zeram optar pela profi ssão professor de Matemática, o que parece depender,


segundo os entrevistados, principalmente, da boa relação com essa ciência como estudante da

educação básica. Vejamos as respectivas falas dos professores J., N. e B.:

“Em virtude da minha facilidade, do meu raciocínio lógico matemático e conversando com meu

professor, ele me aconselhou a fazer um curso de Matemática para eu então ser professora, pois

isso era su

fi ciente naquele tempo.”


“Eu sempre tive facilidade de trabalhar com números e com cálculos. Daí eu optei por fazer um

curso de matemática pelo fato dessa a

fi nidade.”


“Na época, tinha um salário muito bom e eu gostava muito de Matemática, daí veio o encontro

do gostar com o salário, e, em função disso, veio o interesse pela pro

fi ssão.”


As falas dos depoentes remetem a um entendimento que antes de iniciarem a graduação, a

concepção de ciência vigente era a formalista, com a Matemática limitada a números e fórmulas e

ancorada em algoritmos.

A pesquisa de Lucion (2009), a qual teve como amostra dezesseis professores licenciados

em ciências naturais, sendo quatro da Matemática, apresentou que não raramente o interesse

inicial destes pro

fi ssionais é voltado especifi camente para o desenvolvimento de cálculos e demais


conteúdos da sua área de formação. Alguns chegam citar que o “tornar-se” professor foi mais um

oportunidade no mercado de trabalho do que uma opção propriamente dita. Um dos licenciados

em Matemática relata:


[...] ser professor acaba sendo uma conseqüência, você não entra na maioria das vezes pra ser

professor, tu acaba virando professor no

fi nal do curso até por falta de outras possibilidades, é o


que tem pra trabalhar. Então as outras disciplinas (referindo-se às disciplinas pedagógicas) você

acaba fazendo mais por obrigação. (LUCION, 2009, p. 106, grifo da autora).


Buscando entender e compreender a concepção de ensino dos professores formadores

entrevistados, procuramos esclarecer o que é ser um bom professor de Matemática para cada um

deles. Há formadores que entendem que, para ser um professor “bem sucedido”, é fundamental

garantir a aprendizagem dos conteúdos, como sugere a fala do professor V.: “É conseguir fazer com

que os alunos aprendam Matemática”.

Entendemos que é fundamental que os estudantes aprendam Matemática. Entretanto,

concordando com Saviani (1998), o professor deve vislumbrar, juntamente com a aprendizagem,


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a formação de um cidadão crítico e capaz de organizar seus pensamentos, a

fi m de ter um


comprometimento social. A ideia de que a centralidade da escola está na mera transmissão de

conhecimento é combatida por Libâneo (1990). Para o autor, a escola não deve se limitar a transmitir

conhecimentos disciplinares para a formação geral do aluno, formação esta que o levará, ao inserirse

futuramente na sociedade, a optar por uma pro

fi ssão valorizada. Na maioria das escolas essa


prática pedagógica se caracteriza pela sobrecarga de informações que são veiculadas aos alunos,

o que torna o processo de aquisição de conhecimento, muitas vezes, burocratizado e destituído de

signi

fi cação. Percebemos a representação destas colocações na seguinte fala do professor V.: “É


comum agente escutar nos conselhos de classe que temos que formar alunos ‘cidadãos críticos’,

porém o que se faz ainda é passar os conteúdos todos ‘mastigados’, eles decoram e repetem aquilo

sem um empenho próprio”.

Encontramos formadores que vislumbram uma formação mais ampla. Entendem que não basta

saber Matemática, como aponta a fala da professora J.:


Eles estão num período de formação que devem entrar em contato com diversos elementos que

dizem respeito a ser educador, não é só a parte didática, também não é só ser humano. Ser

professor de matemática é um conjunto que envolve saber lidar com os objetos em sala de aula,

ser gente e olhar para os alunos dele e entender como gente e fazer o aluno sair da sala de aula

gostando de ser professor e que pense que ser professor é maravilhoso todos os dias.


Há índicos que J. apresenta uma concepção diferente daquelas que predominavam em sua

formação inicial. Porém sua fala

fi nal “fazer com que os graduandos de matemática saiam da sala


de aula pensando que ser professor é maravilhoso ‘todos os dias’”, acaba manifestando uma imagem

que não é condizente com o cotidiano escolar.

Nosella (1981) destaca que este tipo de “ilusão” transmitida na formação faz parte dos interesses

da sociedade capitalista manifestos na educação, em “camu

fl ar” a verdade, tentando causar um


sentimento de satisfação/conformidade, quando na realidade vivenciada não é tão bela quanto

passada. Ainda sim, consideramos legítimo e importante a valorização do fator humano em sala de

aula, representado na fala de J., em conformidade com a visão da psicologia humanista que trouxe

contribuições signi

fi cativas para a área da educação.


Muitos formadores, como sugere Fiorentini (1995), ao considerarem fundamental que o

aluno se torne agente do processo, devendo o professor limitar seu papel a orientar ou facilitar a

aprendizagem, se aproximam do ideário construtivista.


O ensino de matemática nesta tendência fundamenta-se no fato de que o aluno “aprende fazendo”. O

professor neste contexto, passa a ser um auxiliador no desenvolvimento livre de seu aluno, passando

a enfatizar menos as estruturas internas da Matemática para que, dessa forma, não gere desinteresse

no aluno. Defende ainda a idéia de que a matemática está presente no próprio mundo natural e

material em que vivemos. Assim, o conhecimento matemático surge do mundo físico e é percebido

pelo homem através dos sentidos. É pela manipulação e visualização de objetos ou atividades práticas

que ocorre uma aprendizagem efetiva da Matemática. (CARDOSO, 2007, p. 82).


Os formadores de professores de Matemática entrevistados perceberam que é necessário

modi

fi car o olhar frente à educação. Com esse entendimento, buscaram depois da graduação superar


as concepções de seus professores, pois as consideram inapropriadas na contemporaneidade. A

busca de subsídios se materializou em ações de formação continuada ou em leituras de artigos e

livros relacionados à educação e à educação Matemática. Desta forma, o entrevistado N. sugere que

os futuros professores busquem ao longo de suas vidas pro

fi ssionais elementos que potencializem


suas práticas pedagógicas:


[...] fazem o curso de matemática porque têm a

fi nidade com as exatas e além do conhecimento


que já trazem consigo é preciso um aprimoramento. Primeiro pela questão da formação, até por

que, com as novas tecnologias, as mudanças estão ocorrendo com uma velocidade astronômica e

têm que estar sempre se preparando. Ai entra a questão da formação continuada para que eles

possam sempre estar correspondendo às mudanças que irão ocorrer na sociedade.


O desejo de mudar é explicitado por J., que percebe a necessidade de ampliar seus conhecimentos

matemáticos e pedagógicos ao vislumbrar o doutorado:


Eu penso que a minha formação continuada ela acontece todos os momentos em sala de aula

e acima de tudo, na busca por leituras diárias. Mas falando em formação continuada em nível

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de pós-graduação, de mestrado ou Doutorado que por sinal é minha próxima intenção, tenho

participado de seminários e à medida que eu vou trabalhando com a formação de professores

vou me atualizando.


Se admitirmos que as concepções de ensino dos formadores dos formadores entrevistados não

estão mais de acordo com o desempenho e o papel pro

fi ssional do professor de Matemática hoje,


podemos perceber que os formadores pesquisados mudaram em alguns aspectos as atitudes relativas

à postura metodológica e às relações estabelecidas com os acadêmicos do curso de Matemática-

Licenciatura, futuros professores.

Esse entendimento pode ser veri

fi cado na fala da professora J. “Para ser um professor de


matemática, acima de tudo ele tem que ter os elementos de formação humana, domínio de conteúdo,

bom relacionamento com os alunos e controle emocional.”

As falas parecem remeter ao entendimento que o processo de elaboração e apropriação do

conhecimento pelo futuro professor de Matemática não se dá por meio da transmissão de verdades

prontas e acabadas, mas, principalmente, pelo intuito do formador em oportunizar ao aluno o pensar

e o re

fl etir sobre o conhecimento de forma dinâmica, contextualizada e situada historicamente.


O objeto do conhecimento é social e é determinado pelas relações humanas. A aprendizagem

precede ao desenvolvimento. O bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento mediante

aprendizagens signi

fi cativas, aplicáveis em outras circunstâncias e situações da vida. (SANTA


CATARINA, 2005).


Nessa linha de pensamento, segue o raciocínio do professor B.:


Além de eles construírem o conhecimento é importante os fazer trabalhar em equipe. A questão

da humildade também é importante, que o futuro professor de matemática busque no seu colega

de pro

fi ssão, uma esperança num problema que ele pense que não tenha solução.


A fala a seguir, do professor B., demonstra a in

fl uência da escola nova em seu discurso, na


medida em que acredita que as práticas educativas devem partir dos interesses de cada aluno. Ao

a

fi rmar “a hora que o aluno está pronto”, também representa a importância destacada à maturidade


deste, o que também nos remete ao construtivismo, em especial a Piaget (1989), que a

fi rma a


aprendizagem ser dependente da maturidade biológica da criança.


Não, ninguém ensina ninguém, o que agente faz é orientar para o estudo, por que na verdade o

professor que ensina ele não ensina nada. A hora que o aluno está pronto para abrir um livro e

realmente estudar e entender o que está no livro ele esta apto para trabalhar. (Professor B.)


Porém

fi zemos ressalvas, pois nem sempre o que é evidenciado por meio da fala é vivenciado


como prática docente. Para tal a

fi rmação, seria necessário o contato direto com o ambiente em sala


de aula, para que se observasse o direcionamento dado pelo docente dos cursos de licenciaturas

em Matemática.

Na busca de superar as mazelas da escola tradicional, criou-se por meio da escola nova a

visão de que “o professor não é aquele que ensina, o currículo não é constituído de conteúdos de

valor universal e o aluno deve aprender a buscar por si próprio os conhecimentos ou informações

que tenham utilidade para seu cotidiano” (DUARTE, 2006, p. 100-1). Tal perspectiva causou, por

volta dos anos de 1960, em especial no Brasil, uma sensação de insegurança, na medida em que

a maioria das escolas públicas não possuía um espaço e nem estrutura para atender aos alunos de

acordo com a nova proposta educacional.

Neste sentido, devido às frustrações vivenciadas, novas perspectivas surgem com vistas à

melhoria do ensino-aprendizagem, incluindo o ensino de Matemática.


Destaca-se o entendimento de que todos são capazes de aprender Matemática e que para tal é

fundamental que se tenha uma concepção de Educação Matemática “entendida como uma postura

político-ideológica de quem se propõe a ensinar Matemática, o que implica na compreensão de

que todos têm o direito de se apropriar do conhecimento matemático sistematizado e de que é

dever da Escola a sua socialização”. (SANTA CATARINA, 1998, p. 106).


Fiorentini (1995) e Saviani (1998), entre outros autores, anunciam como tendência emergente

para o século XXI a pedagogia histórico-crítica, que se caracteriza por uma postura crítica e re

fl exiva


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diante do saber escolar, do processo ensino-aprendizagem e do papel sociopolítico da educação

escolarizada. De acordo com o olhar da pedagogia histórico-crítica, encontramos indícios no discurso

do professor N.


Eu costumo dizer aos alunos “que se está muito fácil é porque tem alguma coisa errada”. A

aprendizagem envolve também o esforço, assim como a construção da crítica. Contextualizar

a matemática com a vida social, cotidiana exige primeiramente saber a matemática. E isto é

também ensinar a pensar criticamente.


A apropriação do conhecimento é concebida como atividade inseparável da prática social. “É o

processo que, partindo da prática, leva a aprender a realidade objetiva para, em seguida aplicar o

conhecimento adquirido na prática social para transformá-la” (LIBÂNEO, 1990). Para este autor, a

postura pedagógica é admitir um conhecimento autônomo, assumindo o saber como relativamente

objetivo, porém inclui a possibilidade de uma reavaliação crítica. Assim, o papel do professor é o de

permitir o acesso do aluno aos conteúdos, sempre que pertinente, ligando-os com sua experiência

concreta, e proporcionar elementos de análise crítica que os ajudem a ultrapassar a experiência

em que lhe é incutida pelas forças da ideologia dominante. O professor V. demonstrou, durante a

entrevista, certa insatisfação com a incoerência entre discurso acadêmico e a prática docente no

ensino superior propriamente dita:


Embora a universidade venha com este discurso de formar um aluno crítico e independente, o

que ainda se espera na prática é o aluno pací

fi co, que não contraria e que não faz críticas. A


crítica não deveria, mas ainda incomoda muitos pro

fi ssionais professores. Eu mesmo só tive


consciência disto após os meus estudos contínuos com pesquisa na área da educação, mas

ainda assim, tem pro

fi ssionais meus colegas que buscam formação continuada fora da área da


educação e ai já percebemos diferenças.


Para Saviani (2009), uma teoria revolucionária crítica deve empenhar-se para colocar a educação

a serviço da transformação das relações de produção. Se o objetivo é privilegiar a aquisição do saber

para vincular às realidades sociais, é preciso que o método de ensino favoreça a correspondência dos

conteúdos com os interesses dos alunos, não só como entende a Escola Nova, mas apropriados de

uma forma tal que lhe deem signi

fi cado e sentido - social, histórico e pessoal - para o desvelamento


das contradições e a compreensão da realidade (prática social).


CONSIDERAÇÕES FINAIS


As in

fl uências das pedagogias, as abordagens e as tendências em educação Matemática deram


signi

fi cado para a análise das concepções de Matemática, de ensino e de aprendizagem supostamente


adotadas por esses professores. As análises mostram diferentes concepções metodológicas no que

se refere à prática docente.

Aproximar-se das concepções que compõem o ideário pedagógico dos formadores e sua relação

com o contexto social contribui não somente para o entendimento das ideologias subjacentes à

prática docente, mas, sobretudo, em relação à formação crítica destes e o caminho percorrido para

que surgissem modi

fi cações no olhar frente o processo de ensino-aprendizagem no contexto da


Matemática.

Podemos perceber que as concepções de ensino e aprendizagem não são apresentadas de forma

distinta uma da outra com facilidade. Existe uma relação próxima entre as tendências e isso acaba

sendo um obstáculo para a compreensão das concepções adquiridas por esses formadores ao longo

do processo de formação. Entretanto, depois de uma leitura atenta das falas dos formadores, as

tendências foram se descortinando.

O presente estudo sugere que ocorreram mudanças signi

fi cativas nos processos de formação dos


futuros professores de Matemática, pois há indícios que

fi zeram sua graduação em uma época em


que predominava a tendência tecnicista e com uma concepção de Matemática formalista. No entanto

veri

fi camos que o que pensam hoje em relação ao movimento de ensinar e aprender Matemática não


converge com as concepções de seus formadores. Existe, atualmente, uma preocupação por parte

dos formadores, pelo menos em nível de discurso, não só com a parte Matemática, mas também

com a formação pedagógica; trabalhando além de conteúdos matemáticos, a parte humana, aliada

com as práticas utilizadas para a apropriação dos conteúdos por parte dos alunos.


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O trabalho sugere que as mudanças nas concepções e as opções metodológicas ocorreram

pela disposição dos formadores de buscar subsídios teóricos e práticos nas oportunidades

de formação continuada que vivenciaram depois da graduação. Desta forma, destacamos a

importância de uma formação teórica sólida nas áreas da Educação e da Matemática que deve

acontecer durante a graduação.

O estudo de caso em questão permitiu visualizar a ligação das práticas pedagógicas dos

docentes entrevistados com suas respectivas concepções. Porém ressaltamos que seria necessária

uma pesquisa mais abrangente que incluísse observações e/ou investigações por meio do quadro

discente dos cursos de licenciatura em Matemática, para veri

fi car a coerência entre o discurso


apresentado e a prática vivenciada em sala de aula. Deixamos tal possibilidade como sugestão de

futuras pesquisas que visem ampliar a temática.


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Artigo recebido em 08/03/2011

Aprovado em 17/06/2011